O Outro


O Outro, divagações de um encontro de alguém com “um certo alguém”.

A vida é encontro.


O Outro

Era algo assim…

Ele jazia imóvel sentado no banco de um ônibus.

Jazia porque era como se já tivesse vivido os últimos instantes da vida, aquele momento onde tudo passa diante dos olhos.

O passado à sua frente.

O passado sendo o presente.

O futuro jaz como ausente.

Era algo assim…

Ele com alguém ao seu lado.

Os olhos vidrados na janela que descortina a vida com o viajar do ônibus.

Um olhar ávido de nada que fita o infinito e/ou algum além.

Em breve chegará o seu ponto, mas onde estaria seu ponto de vista?

Talvez ancorado no passado?

Fincando bandeira em algum solo do futuro?

Como saber?

Tudo talvez, por acaso ou em algum ocaso.

Em breve chegaria em sua casa, mas aonde estaria agora?

Talvez a pessoa ao lado, se é que havia alguma, quisesse lhe tocar, mas e se, por ventura, ao tocar sentisse ali um corpo rígido, frio?

Alguém toca a campainha.

Clarins do apocalipse?

Para ele tanto faz!

Ele segue impávido em seu itinerário sem pontos, sem vírgulas e sem acentos.

Era algo assim…

Estranho. Um corpo ocupando espaço. Explicável para a física e inexplicável para a metafísica.

Ele era e não estava ou talvez e por acaso estava e não era.

Mas em que era estava?

Talvez em todas, talvez em nenhuma.

Quem sabe não fosse era, e sim fosse e sabe-se lá se ainda não seria?

O tempo é como ele era.  O passado recheado de presente.

Um tempo sem minutos, sem horas, sem dias, sem noites, sem semanas, sem meses, sem anos, sem séculos, sem milênios, sem passado, sem eras, sem futuro…

Só o presente, o eterno presente, o infinito agora num remoto passado do momento.

O presente como presente de Deus e tudo que fosse a mais eram invencionices do bicho homem.

O homem divide e subdivide o tempo para poder em um dia nascer e em um dia morrer, sem perceber que o tempo é imutável, inteiriço e ininterrupto, assim como ele.

E quando chegasse o ponto final, o que fariam com ele?

O tempo passa no deslocamento do espaço.

E a questão persiste: o que estaria ele fazendo agora?

O peito se movimentando, arfando e isso o rotulava como um vivo.

Vem à mente a imagem do mar, das suas ondas indo e voltando, arfando…

Haveria alguém dentro daquele ser?

Pela janela passa uma funerária e ele não desceu. Dedução lógica: ele não morreu.

Observo agora um leve franzir de nariz, mas logo desaparece.

Tudo breve, feito um terremoto!

Quantos “eles” haveriam ali naquele ser?

O que haveria em sua biblioteca? Clarice Lispector? Fernando Pessoa? Helena P. Blavatsky? Um diário? Um jornal?

Em que estado ele estaria? Sólido? Líquido? Gasoso? Etérico? Como saber?

Bastaria tocá-lo para saber, mas e o medo?

Ele se importaria ou haveria uma explosão ou curto-circuito?

O meu ponto se aproxima! É também meu ponto de fuga do mistério.

Eu tenho onde descer e por isso eu difiro dele.

Mas agora estamos no mesmo banco, no mesmo barco!

Motorista do ônibus feito Caronte! O cobrador fica com as moedas!

Levanto-me, passo a catraca e creio que ele ali permaneceu imóvel, imutável.

Desço e ele não.

Perambulo nas ruas olhando vitrines, procurando algo, assim como ele procurava.

Paro numa esquina diante de uma vitrine e… De novo ele!

De dentro da vitrine ele me observa!

O que faz ele ali?

Constatação: “ele também desceu”!

Teria sido junto comigo?

Não!

Ele parece ser do tipo que faz tudo sozinho!

Teria me seguido?

Não!

Ele não é do tipo que segue alguém e, além do quê, eu não sou guia para ninguém!

Por que ele me olha ali de dentro da vitrine da loja?

Fito-o e noto seus olhos fixos em mim.

Viro-me para bravamente ficar frente a frente com ele e reviro-me no avesso ao vê-lo me encarar!

Estamos frente a frente e então desvendo o mistério!

Quando estive naquele ônibus eu estava sentado num banco vazio e com o vidro da janela ao meu lado.

Reflito e em minha reflexão constato que “ele” era o meu próprio reflexo no vidro do ônibus.

Sempre fui eu que estive comigo! Sozinho comigo!

Agora entendo porque tive tanto medo!

Estendo a mão para o meu reflexo na vitrine. Estendo minha mão direita e ele estende a esquerda.

Ele e não eu?

Sim! Ele é canhoto e eu sou destro! Diferimos!

Somos o mesmo e singularmente dois!

Quando há dois então há “um” e o “outro”!

Educadamente apresento-me:

-Prazer em me conhecer!

Silêncio.

Sou socialmente educado! Esse outro não sou eu!

Que tolice a minha pensar que ele fosse eu.

Ele é mudo e mal educado e eu não.

Sigo em meu caminhar, rindo de mim e comigo mesmo!

Ando, olho para baixo e vejo um vulto negro deslizando no chão.

Caminho e percebo que aquele vulto negro me segue rastejando pelo chão.

Cada louco neste mundo!

Paulo Rogério da Motta


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