O médico e o louco


O médico e o louco, uma história sobre o desejo de poder e o perigo que reside dentro de cada um.

Um conto do livro: Nascer para sonhar.


O médico e o louco

Esta é a história de um homem muito rico e que se considerava muito poderoso.

Durante toda a sua vida submeteu a todos que cruzaram o seu caminho aos seus caprichos e desejos e a submissão das pessoas necessitadas deu ao rico homem a impressão de que era o ser mais poderoso de todo o mundo e isto o levou à loucura.

A esposa do homem rico e louco então chamou o médico do lugar, um homem muito sábio.

– O que o senhor tem? – Pergunta o médico ao louco.

– Eu tenho poder! – Responde-lhe com um brilho tirânico nos olhos.

– E o que é ter poder?

– Ter poder é ter tudo o que se quiser e dominar quem se queira.

– Pois eu digo então que o senhor não é totalmente poderoso.

– O quê? Como ousa dizer-me tal tolice? Eu tenho tudo e todos! Veja! Até o senhor está aqui me servindo!

– Nisto o senhor tem razão! Sou-lhe um servo e escravo, mas eu sei de alguém que não se submeterá à sua vontade!

– Impossível! Onde está esse alguém? Leve-me até ele e eu lhe mostrarei o meu poder!

– Ele está em minha casa. Acompanhe-me, por favor!

E o médico levou o louco até sua casa, subiram as escadas até um quarto que tinha um grande espelho colocado na porta, do lado de dentro do quarto.

Médico e louco entraram no aposento e o primeiro fechou a porta tomando o cuidado para que quando esta estivesse fechada somente o reflexo do louco aparecesse no espelho.

– Vê aquele homem? É dele que eu falava! – Disse o médico apontando para o reflexo do louco no espelho.

– Vejo e farei dele o meu escravo.

– Como o senhor vê, ele está guardando a saída do quarto e eu aposto que nenhum argumento que o senhor use será capaz de fazê-lo dar permissão para que o senhor saia deste aposento.

– Aceito a aposta, mas o que você aposta?

– A minha vida.

– E o que você quer?

– A metade de toda a sua fortuna.

– Aposta aceita! Em breve terei um escravo e um enterro para presenciar!

– Duvido, meu caro! Duvido! – Disse o médico saindo do quarto e fechando a porta.

O louco fita o seu reflexo e oponente no espelho.

– Vamos! Diga-me quanto você quer para me deixar sair daqui?

Nenhuma resposta.

– Você é mudo, seu imbecil? – O louco lança um olhar cheio de raiva à sua imagem.

Nenhuma resposta. O louco fica com medo do olhar raivoso do seu oponente.

– Calma, meu caro, relaxe! – Diz o louco e agora no tom que os subornadores usam. – Você por certo ouviu a aposta que eu fiz com o médico e sabe que nós apostamos a metade da minha fortuna. Pois bem, eu lhe dou um terço da minha fortuna para que você me deixe passar!

Nenhuma resposta.

– Você acha pouco?! E que tal a metade do que eu daria a ele?

Nenhuma resposta e assim se passaram um, dois e no final do terceiro dia o homem rico e não mais louco desce as escadas em direção à sala onde se encontra o médico.

– O senhor o convenceu a deixá-lo sair? – Pergunta o médico referindo-se ao guardião da porta do quarto.

– De certa forma sim! Afinal, eu me permiti sair!

– E o senhor quer a minha vida?

– Não me chame de senhor, por favor, me chame de você! Não, eu não quero a sua vida e mais, eu ainda lhe darei a metade da minha fortuna!

– Mas você ganhou a aposta!

– Sim e não! O senhor me disse que havia alguém que eu não conseguiria dominar e este alguém existe: sou eu mesmo!

– Mas quanto a eu ter ganhado a aposta, isto também é duvidoso! O senhor saiu tendo o consentimento de si mesmo.

– Mas isso não importa! E eu prefiro que o senhor tenha a metade da minha riqueza, considere como o pagamento da consulta e assim eu sempre me lembrarei que existe alguém tão rico quanto eu e, desta forma, eu não terei uma recaída em minha loucura.

O médico lhe sorri e diz:

– Parabéns, agora você é um homem poderoso e rico, pois descobriu que o seu pior inimigo pode ser você mesmo e que um homem não é senhor de nada se não for senhor de si mesmo. Riqueza e poder são efêmeros; sabedoria e bondade são tesouros.

Paulo Rogério da Motta


 

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