O antagonista de quase tudo


Um dia já quis mudar o mundo

E assim tornei-me humilde

E rouco.

Rouco por gritar como louco

E cansado de tanto estardalhaço

Virei palhaço,

Virei espectador da minha realidade.

Assisti a todo tipo de crime

Sentado numa poltrona de vime.

Fazia cena para quem passava,

Sorria para quem me olhava

Sabendo que tudo na vida passa

Mesmo sabendo que tudo não passa

De uma farsa.

Mas o que importa?

Fechava os olhos

Como quem fechava uma porta.

Brindava a tudo com ópio,

Por vezes não sorria por ócio.

Pedia brindes a quem chorava,

Pedia as lágrimas do pranto

Para matar a sede dos meus olhos.

E então levantava e caminhava,

Cheio de gente e sozinho.

Até o dia que gritei para mim:

– Não pode ser assim!

A indiferença se desvaneceu como por encanto

E venci quando me convenci

Da desavença da descrença.

Tentei virar o rosto,

Fingia que não me importava,

Afinal, dizia:

– Não é este o papel de todos?

Disse para mim:

– Não posso ser assim!

Decidi, assim, a ser louco, rouco e tolo.

Rasguei a fantasia!

– Chega!

Busquei ouvidos para minha poesia

E assim,

Não participei mais do delito.

Fugi da cumplicidade

Na realidade da utopia

E tudo em nome da vida.

Tudo para não vestir luto,

Tudo por uma filosofia,

Ideologias

Ou mesmo absurdos

E mesmo que me identifiquem

Como o antagonista de quase tudo.

Paulo Rogério da Motta


Sugestão musical para a poesia

Engenheiros do Hawaii – Dom Quixote


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